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O
JORRO
Rachel de Queiroz
Escritora e Imortal da Academia Brasileira de Letras.
(Esta crônica foi publicada na Revista O CRUZEIRO do Rio de
Janeiro em 26/05/1962)
Os engenheiros estavam cavando um poço de petróleo,
mas parece que erraram os cálculos; tem quem diga, porém,
que não estavam enganados, estavam mandados. E que a sonda
tinha um encanto - botado por quem, não se sabe. O fato é
que, quando o buraco passou dos mil e tantos metros, a água
brotou das profundezas da terra, sulfurosa, quente de escaldar,
irrompendo céu acima como um "geyser". E é
um "geyser". Artificial, mas "geyser". Passado
o assombro daquela explosão líquida, mandaram examinar
a água e viram que era medicinal. Não só pela
composição química, mas pelo calor mágico,
diz o povo. Sei que ali, em pleno sertão baiano, na hoje
famosa bacia de Tucano, onde depois se encontrou petróleo
mesmo, nasceu uma estação termal. Tudo em proporção
modesta, estação d'águas para gente pobre.
Nada de palaces, mas aquelas imensas hospedarias abarracadas, que
se intitulam pomposamente de hotéis. Uma anuncia até
cinema. Todos declaram conforto moderno, tal como o compreende a
elementar indústria hoteleira do sertão. Na verdade,
os quartos são simples cubículos dando todos para
um corredor, como celas de convento. Ou células de prisão.
Piso de tijolo, telha-vã, duas camas com colchão de
capim, um pequeno guarda-roupa, uma mesa minúscula com quartinha
- que é como se chama bilha ou moringa em nordestino. Do
teto pende o fio com a empola da luz fraca; tudo, tão fina
quanto o ar. Ao longo, o horizonte largo, a vegetação
rasteira e cinzenta, árvore não se vê. Não
muito longe fica Canudos, evocando a guerra e sangueira nunca esquecidas.
Todos os hotéis anunciam os seus banheiros com água
do Jorro, livres da promiscuidade do banheiro público. realmente,
embora passando pelo encanamento do hotel, a água ainda chega
tão quente que dá medo. E o seu cheiro de enxofre
é fortíssimo. Sai-se da torneira escaldado, desinfetado,
cheirando a cachorro que tomou banho com sabão de matar pulga.
A fama do Jorro ainda não atingiu as classes ricas, mas grande
é o seu renome entre pobres e remediados. Gente modesta das
pequenas cidades sertanejas acorre às águas medicinais
com a mesma fé das grã-finas hipocondríacas
que vão a Poços de Caxambú. Vêm de caminhão,
de jardineira, de ônibus, em velhos carros decrépitos.
Acampam nos hotéis como qualquer outro "aquático",
têm seus campeonatos de biriba e suas paradas de elegância
nas horas do entardecer ou do jantar. Há mesmo as adiantadas
com seus "slaks" e blusões, e entre as murmurações
das senhoras à fila do banho, comentava-se um grupo de pernambucanas
ostentando calças de "umbigo abaixo", versão
local da "Saint-Tropez".
E crianças. Crianças a infinidade. Uma das características
da sociedade subdesenvolvida é o excesso de crianças.
Parece que na Índia estão fazendo um estudo sobre
a correspondência entre a dieta pobre e a faculdade reprodutora.
Pelos arredores não se vê sinal de cultura nem de rebanhos.
Riqueza, se ali existe alguma, será debaixo do chão.
Por cima tudo é liso, seco e (nesta época em que grande
parte da Bahia padece uma seca de dois anos) cor-de-cinza. Deve
ser difícil o abastecimento de tantos hotéis. E a
prova é que o jantar, ao contrário da tradição
baiana, é bem parco. Um simples arroz de galinha, dois pedaços
pequenos para cada hóspede, e olhe lá. Sobremesa,
um pires pequeno com doce de côco. Não havia pão
à mesa. Um passageiro reclamou que a comida era pouca e foi
informado de que desse graças a Deus por ainda haver aquilo:
o caminhão de abastecimento dera o prego em caminho, e estava
faltando tudo. Fruta não vi nenhuma, nem legumes. Também
não vi uma flor. Mas lá comprei uma linda bolsa de
palha de ouricurí, listrada de vermelho e branco.
À noite, a roda de calçada se forma, captando o vento
seco que tem um gosto de areia. Os hóspedes palestram e um
senhor, com cara de português mas sotaque nacional, discorre.
Ao seu lado, enchendo a poltrona de vime, senta-se a esposa dele,
imensa mulata que em jovem devera ter sido formosa, cabelo ruim
mas olhos claros, e uns modos altivos de grande dama, uma compostura
no sentar, uma doçura no falar - me lembrei de Manuel Bandeira
ou foi Mário? -, quando falava em mulatas imperiais. Aquela
era realmente uma mulata imperial. E até agora, gorda e velha,
não largava os dengues, a sandália de salto no pé
pequeno, as rendas da anágua entrevista no cruzar da perna,
o perfume de capim-cheiroso que a envolvia como uma aura. O senhor
ao seu lado via-se que, passados tantos anos, ainda se mantia cativo
dela; - recebia-lhe as ordens - guardar um papel no bolso, emprestar
os fósforos, chamar o neto -, com um sorriso submisso. Chama-a
de bem. Mas era ao mesmo tempo um homem espiritual, e naquele momento
explicava que a invenção do Jorro (dizia "invenção"
no seu sentido arcaico, querendo significar descoberta, como se
diz "invenção da Santa Cruz"), fora mandada
por Deus para afirmar aos descrentes a existência do inferno.
Deus manda as suas provas, os homens não querem enxergar.
Ali estava todo mundo tomando banho na água do Jorro, bebendo-a,
sarando feridas e curando entranhas enfermas; depois iam embora,
como aquilo fosse coisa natural, como se a água milagrosa
viesse dum encanamento comum, colhida por mãos humanas. Ninguém
pensava: de onde vem o calor? Em que chama se aquecia aquela água,
saída das funduras da terra? E o enxofre, de onde é
que vinha o enxofre? Qual é o lugar, debaixo do chão,
onde tem fogo e tem enxofre? Qual é o lugar, qual é?
Uma senhora de Feira de Santana, muito magra e sem cor, que procura
o Jorro para um mal de fígado, benzeu-se: Mas se a água
vem do inferno, como é que pode fazer bem? Do inferno só
vem coisa ruim.
- E os poderes de Deus? A senhora parece que não está
contando com os poderes de Deus. Deus querendo, o que queima cura,
o que perde salva. O inferno se vira em jardim, o demônio
em anjo. Assim a água do Jorro.
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